quinta-feira, 7 de abril de 2016

Qual o papel da gramática?


Os professores de português, pelo menos há algumas décadas – parece que está mudando, não é? - ensinam a formação das palavras, a fazer análise sintática, cobram concordância... Mas não situam o que esse estudo significa. Quando eu estudei na escola, parecia um ensino mecânico, sem propósito. Como ter gosto ao ser obrigado a “aprender” algo que parece dissociado do uso? Hoje, parece até absurdo que isso fosse possível porque o ato de se comunicar é quase tão comum como o de respirar.
Segundo Martelotta (2015), Aristóteles já buscava descrever a forma pura e geral do pensamento, não se preocupando com os conteúdos por ela veiculados. E para ele, a linguagem seria uma mera representação e um mundo já pronto, um instrumento para nomear ideias existentes. De acordo com o autor esses princípios são chamados de realismo ou fundacionalismo.
Ao lado da preocupação filosófica, a gramática grega já apresentava uma preocupação normativa. Ou seja, já queria impor um padrão de língua ideal.
Na época medieval, o latim adquiriu mais prestígio por ser adotado pela igreja. Assim, a atitude normativa permanece, mas com o intuito de conservar o latim puro. E assim, a gramática latina serviu de base para várias outras línguas porque indicava status ser parecida com uma língua latina.
A visão aristotélica foi reproduzida mais tarde no século XVII, até perder a força com o surgimento dos linguísticas no século XIX.
Parece que havia um medo de se render às mudanças socioculturais. A língua é um fenômeno sociocultural. Ainda não consigo pensar que uma gramática possa ser separada disso. Mas parece que existia um sentimento de conservação a todo custo.
Será que era para não tornar a língua muito “popularesca”, já que a erudição está ligada a classes mais abastardas??
Creio então que essa primazia pela forma, pela norma, pela regra até em detrimento ao uso deve vir de razões históricas. Não que a Gramática deva ser dispensada. Todo idioma precisa de um parâmetro, de estudos que sejam catalogados – sem dúvida. Mas que essa gramática seja ligada e ensinada ao texto, ao uso. Que a gramática nos sirva, e não o contrário.

Um comentário:

  1. Excelente postagem.

    É muito bom levantar essa questão. A gramática existe por causa da língua (porque essa surgiu primeiro) e não o contrário.

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